sexta-feira, 17 de abril de 2009

Uma disse Sim, a outra disse Não.
E não se soube de quem era a razão.
E soltaram as mãos
Derrubando as rosas no chão.

Uma disse Eu te Amo, a outra disse Eu te odeio.
E não se soube quem sentia medo.
E ninguém desfez o silêncio
Que as consumia, inteiras, por dentro.

Uma disse Fique, a outra disse Adeus.
E não se soube quem sofreu.
E aos seus gritos ninguém respondeu,
E esse romance sem fim, enfim, morreu...


segunda-feira, 16 de março de 2009

A cidade em silêncio
Num marasmo imutável
Nem mesmo os pensamentos ecoavam nas paredes.
Nessa tarde vazia
Onde o nada fazia todo o sentido,
Parei para pensar em nós.
Nessa tarde monótona
Pensei em nossa sintonia
Tranformei minhas horas em nostalgia
Admirando nossa harmonia em meio ao caos.
Mas a noite foi chegando,
E a inércia foi se desfazendo,
Os sons destoando esse momento.
E conforme as pessoas começam a se movimentar,
Eu me recusava a imitá-las.
Fui deitar ao seu lado,
No nosso silêncio inquebrável,
Na segurança palpável de seu abraço...
Fugindo da vida lá fora,
Criando uma vida só nossa.

quarta-feira, 11 de março de 2009


Ela caminha por entre as flores,
Que invejando sua beleza
Mostram todas as suas cores,
Tentam se equiparar a sua grandeza.

Os ventos passeiam por seus cabelos,
Macios, perfumados, vermelhos;
As criaturas por eles envoltas
Perdem logo todos os seus medos.

O brilho de seus olhos ofuscando as estrelas.
Ela confessa para a Lua seus segredos,
Que permanece mais tempo no céu apenas para vê-la.

O orvalho formado por suas lágrimas
Dura até o amanhecer,
As pétalas molhadas
Que ninguém vai colher...

domingo, 8 de março de 2009


Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: "parabéns".

Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde "obrigada", pensando: "mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?".

Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.

Dizem que a rosa simboliza a "feminilidade", a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade -- da supervalorização da virgindade é que saiu o verbo "deflorar" (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a -- afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são "putas", inferiores, menos respeitáveis.

A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o "sexo frágil" e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patrícia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro. Este tipo de crime também aparece com freqüência na mídia. No entanto, são tratados como crimes "passionais" -- o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma freqüência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como "românticos" exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que "amam demais", não os homens.

Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladores, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentada. Em Hollywood, as mulheres usam a "sedução" para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de "respeito" e as mulheres têm "mentes perigosas". A mensagem subliminar é: "cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado". E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua "mente perigosa" causaria coisas terríveis.

Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo "pós-feminista" afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?

Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades. Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso -- onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.

A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor...). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua é alterada ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser "feminina". Porque, sim, feminilidade é isso: é "se cuidar". Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: "let yourself go"). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. "Você se ama? Então se corrija". Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.

Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamourizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.
Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são "convidativas", propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio, isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pingüim (?) dizendo "ê lá em casa" para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o "combo" da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando "chupá-la todinha".

Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.

...Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no digníssimo senhor seu cú.

Marjorie Rodrigues

segunda-feira, 2 de março de 2009

Cansei!
Cansei da falsidade e das ilusões.
Cansei de esconder minhas verdades para você ostentar suas mentiras.
Chega de ignorar minhas vontades para ceder à sua ira.
Chega de fugir do mundo como se a culpa fosse minha.
Não quero mais excluir as cores desse mundo monocromático.
Não quero mais sangrar para poder amar.
Quero dizer o que eu guardei no meu peito.
Quero mostrar quem eu sou quando me olho no espelho.
Quero receber um mínimo de respeito.
Gritar aos ventos quais são os meus desejos.
Lutar até o fim contra esse medo.
infligir dor ao preconceito.


terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Deixo essa última carta como despedida
Não por deixar de te amar,
Mas por pensar na minha vida
E ver todos os anos que você me fez gastar.

Percebi que preciso esquecer,
O tempo perdido não vai voltar...
Mas se é pra não te ter,
Que eu viva sozinha em outro lugar.

Vou sentir falta do seu olhar,
Posso até novamente chorar,
Mas nada disso vai mais me fazer voltar.

E agora nós podemos sorrir.
Mesmo que seja doloroso,
Eu quero deixa-la ir.
Um turbilhão de mudanças repentinas,
E ainda assim um certo tom familiar.
Várias lembranças antigas
Procurando uma maneira de retornar.

Pensamentos que fingem não existir,
Mas que se revelam pela ansiedade
Quando sua voz se faz ouvir,
Quando te veem pela cidade.

O mesmo cenário para outra peça,
Os mesmos passos para um outro caminho,
As mesmas mentiras para uma outra verdade.

As mesmas esperanças para um outro final,
As mesmas poesias para a mesma musa,
A mesma bobagem de te amar.